Nos últimos 30 anos, cerca de 65,6 mil pessoas foram resgatadas de condições de trabalho análogas à escravidão no Brasil, segundo dados di...
Nos últimos 30 anos, cerca de 65,6 mil pessoas foram resgatadas de condições de trabalho análogas à escravidão no Brasil, segundo dados divulgados nesta terça-feira (28) pelo Ministério do Trabalho. Essas operações ocorreram em mais de 8,4 mil ações fiscais realizadas em todo o país.
O levantamento considera registros desde 1995, quando o Brasil reconheceu oficialmente a existência de formas contemporâneas de escravidão. Desde 2003, mais de R$ 155 milhões foram pagos em verbas trabalhistas e rescisórias às vítimas. Para os anos anteriores, não há registros de valores, pois o seguro-desemprego para trabalhadores resgatados foi implementado apenas a partir daquele ano.
As ações de resgate são conduzidas pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, coordenado pelo Ministério do Trabalho, em colaboração com unidades regionais do órgão em todos os estados.
Relatos de Quem Vivenciou o Trabalho Escravo
Em meio às estatísticas, as histórias individuais das vítimas refletem o peso dessas situações. Luis Alejandro Gómez, um venezuelano de 37 anos resgatado recentemente de uma fazenda no interior de Roraima, compartilha sua experiência traumática.
"Cheguei ao Brasil em busca de uma vida melhor para minha família, mas encontrei um pesadelo. Trabalhei sem descanso, debaixo de um sol escaldante, sem ter comida suficiente ou um lugar digno para dormir. Quando reclamava, ameaçavam que não me pagariam nada", desabafa.
Luis contou que foi trazido à fazenda com a promessa de um salário justo e condições dignas de trabalho, mas rapidamente percebeu que não era essa a realidade. "Ficávamos isolados, sem contato com ninguém. Não sabíamos a quem recorrer até que os fiscais apareceram. Foi como ver a luz no fim do túnel", acrescenta emocionado.
O estado de Roraima, por ser uma das principais portas de entrada para migrantes venezuelanos, tem registrado diversos casos de exploração de trabalhadores estrangeiros. Segundo o Ministério do Trabalho, os migrantes são um dos grupos mais vulneráveis às práticas de exploração devido à necessidade urgente de emprego e à falta de informações sobre seus direitos.
As ações de fiscalização no estado têm se intensificado, com o apoio de organizações de direitos humanos e pastorais sociais que auxiliam na identificação de situações de trabalho degradante e no acolhimento das vítimas após o resgate.
O Caminho à Frente
As políticas públicas contra o trabalho escravo no Brasil avançaram significativamente nas últimas décadas, mas o cenário ainda exige atenção e medidas efetivas. O Ministério do Trabalho reforça que denúncias de condições análogas à escravidão podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100 ou diretamente nas superintendências regionais do trabalho.
Luis Alejandro, que agora está sob o cuidado de uma organização humanitária em Boa Vista, resume a esperança que carrega. "Quero um trabalho digno e poder cuidar da minha família sem medo. Nenhum ser humano merece passar pelo que passei."
Essa luta continua, não apenas para resgatar as vítimas, mas também para garantir que novas formas de exploração não surjam, perpetuando um ciclo de abuso e violação dos direitos humanos.
fonte G1


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