Pela primeira vez na história, duas das mais respeitadas organizações de direitos humanos de Israel, B’Tselem e Physicians for Human Rights–Israel (PHRI), classificaram oficialmente como genocídio as ações do governo israelense contra a população palestina na Faixa de Gaza. O anúncio representa um marco histórico, não apenas pelo conteúdo, mas pelo fato de partir de entidades israelenses reconhecidas internacionalmente.
O conteúdo dos relatórios
A B’Tselem apresentou um documento de 79 páginas, intitulado Our Genocide, que aponta uma combinação de políticas estatais, declarações de autoridades e resultados práticos – como mortes em massa, destruição e fome – como evidências de uma estratégia para eliminar parte do povo palestino em Gaza. Para a organização, não se trata apenas de ações militares isoladas, mas de uma política deliberada.
Já a PHRI concentrou-se nos ataques contra a infraestrutura de saúde em Gaza. Segundo o relatório, houve destruição sistemática de hospitais, ambulâncias e centros médicos, além de bloqueios ao acesso a medicamentos e atendimento. A conclusão é que essas ações têm como objetivo impedir que os palestinos recebam cuidados básicos, contribuindo para a destruição física do grupo.
Ambos os relatórios foram elaborados ao longo de quase dois anos, analisando milhares de casos de mortes, deslocamentos forçados e violações de direitos humanos cometidas em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e também dentro de Israel.
Reação do governo israelense
O governo israelense rejeitou veementemente as acusações. Em nota oficial, um porta-voz afirmou que Israel mantém o compromisso com o direito internacional e lembrou que o país permite a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. Para as autoridades israelenses, trata-se de uma guerra de autodefesa contra o Hamas, iniciada após o ataque de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas e fez centenas de reféns.
O governo também critica o uso do termo “genocídio”, considerando-o uma tentativa de difamação que ignora as ações terroristas do Hamas e o direito de Israel de proteger seus cidadãos.
Apoio internacional às denúncias
Antes mesmo das declarações de B’Tselem e PHRI, organizações como Human Rights Watch, Anistia Internacional, Genocide Watch e Médicos Sem Fronteiras já vinham classificando as ações de Israel como genocídio ou crimes contra a humanidade. Argumentam que cortes no fornecimento de água, alimentos e energia, além da destruição de casas, escolas e hospitais, configuram um esforço deliberado para destruir uma população.
Além disso, o governo da África do Sul levou o caso à Corte Internacional de Justiça (CIJ), acusando Israel de violar a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. Outros países também apoiaram formalmente o processo.
Segundo juristas especializados em direito internacional, não é necessário que todos os elementos previstos na Convenção sejam comprovados para que haja genocídio: basta demonstrar intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, e que haja atos concretos para isso.
O significado político e simbólico
As denúncias vindas de organizações israelenses têm um peso especial. Representam uma ruptura interna com a narrativa oficial e mostram que setores da sociedade civil dentro de Israel estão dispostos a denunciar violações graves cometidas pelo próprio Estado.
A diretora executiva da B’Tselem, Yuli Novak, destacou que esta foi uma decisão difícil e dolorosa, mas que se tornou inadiável diante do sofrimento causado em Gaza. Ela afirmou que é dever da sociedade israelense não se calar diante de crimes tão graves.
Consequências possíveis
As denúncias aumentam a pressão internacional sobre Israel, inclusive em fóruns diplomáticos e judiciais. Se confirmadas, podem levar a sanções, investigações e responsabilização de autoridades israelenses por crimes de guerra ou genocídio.
Também podem influenciar a opinião pública mundial, inclusive em países aliados de Israel, como Estados Unidos e membros da União Europeia, onde cresce a cobrança por uma postura mais crítica em relação às ações israelenses.
Um retrato da crise humanitária
Atualmente, Gaza enfrenta uma das piores crises humanitárias de sua história recente: falta de água potável, risco de fome em larga escala, hospitais sem funcionamento adequado e cerca de dois milhões de pessoas deslocadas internamente. Grande parte da população depende exclusivamente de ajuda internacional para sobreviver.
Segundo especialistas, mesmo que o conflito termine, a reconstrução da Faixa de Gaza pode levar décadas, tamanha a destruição de infraestrutura essencial.
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