Por Lucas Machado ABRASEL Reconhecimento da Unesco impulsiona turismo e valoriza a experiência de bares e restaurantes em BH, Belém, Flori...
Por Lucas Machado ABRASEL
Reconhecimento
da Unesco impulsiona turismo e valoriza a experiência de bares e restaurantes
em BH, Belém, Florianópolis e Paraty
Quando falamos em destinos gastronômicos no
Brasil, muitos pensam imediatamente em feiras populares, comidas de rua,
botecos famosos ou chefs estrelados. Mas você sabia que quatro cidades
brasileiras receberam da Unesco o título de Cidade Criativa da Gastronomia?
Trata-se de um reconhecimento internacional concedido a lugares que transformam
a cultura alimentar em elemento de desenvolvimento sustentável, valorizando os
ingredientes locais, os modos de preparo tradicionais e a inclusão social por
meio da comida.
As cidades reconhecidas são: Belém (PA),
Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC) e Paraty (RJ). Cada uma com
sua identidade própria, elas provam que o Brasil tem muitas formas de comer bem
— e que essa riqueza gastronômica pode se transformar em atrativo turístico,
orgulho local e oportunidade de geração de renda.
Mas o que esse título muda na prática? Para
o morador ou para o visitante, significa encontrar uma cidade que valoriza seus
ingredientes regionais, suas tradições à mesa e sua hospitalidade. Significa
vivenciar experiências gastronômicas que contam histórias — e, muitas vezes,
memórias.
Belém: sabores ancestrais que encantam o
mundo
Primeira cidade brasileira a receber o
título, em 2015, Belém representa a Amazônia na lista da Unesco. E faz isso com
força. Segundo Rafael Barros, proprietário do restaurante Amazônia na Cuia, o
principal atrativo para os turistas que chegam à capital paraense é, sem
dúvida, a culinária local. “Eles querem provar a maniçoba, o açaí puro, o
tacacá... E ficam encantados. Muitos não sabiam que existia um açaí sem açúcar,
com farinha, por exemplo”, conta.
Para Rafael, os pratos típicos contam mais
do que sabores: contam histórias. “A gente fala de quem planta, de quem colhe,
das influências indígenas. É uma viagem sensorial, mas também cultural”,
afirma. Desde o anúncio da COP30, o restaurante viu o número de turistas
crescer — atualmente, eles representam cerca de 55% do público. “Muitos
estrangeiros chegam por causa do título da Unesco, temos até cardápio e equipe
em inglês”, explica.
Quando questionado sobre qual prato
representa melhor Belém, Rafael é direto: maniçoba. “Tem muito afeto envolvido.
Eu esperava o ano todo para comer a maniçoba da minha avó no Círio. São sete
dias de preparo, aquele cheiro invadindo a casa… é memória pura.”
Belo Horizonte: uma capital onde Minas
se encontra
Na capital mineira, o reconhecimento veio
em 2019, após uma articulação que envolveu prefeitura, empresários, entidades e
festivais gastronômicos. Ricardo Rodrigues, dono do tradicional restaurante
Maria das Tranças e ex-presidente da Abrasel em Minas Gerais, foi um dos nomes
por trás do dossiê apresentado à Unesco.
“Na primeira candidatura, Belo Horizonte
não conseguiu o título. Na segunda, houve uma mobilização geral. Foi muito
bonito ver a cidade inteira unida pela gastronomia”, relembra Ricardo, que
acompanhou todo o processo.
Para ele, a comida mineira tem força
própria, que ultrapassa fronteiras. “Me perdoem as outras gastronomias, mas a
mineira é inconfundível. É base para muitas outras do país”, diz. O título da
Unesco, segundo ele, ajudou a colocar BH de vez no mapa do turismo gastronômico
internacional. “Hoje, recebemos visitantes que vêm exclusivamente por causa da
comida.”
No Maria das Tranças, o frango ao molho
pardo é o prato que mais traduz a identidade do lugar. “É uma receita da minha
avó. Mantemos o mesmo sabor há 75 anos. Quando um cliente diz que está igual ao
que comia 30 anos atrás, a gente sabe que fez a coisa certa”, afirma,
emocionado.
Florianópolis: mar, terra e tradição no
prato
A capital catarinense entrou para a Rede de
Cidades Criativas da Unesco em 2014, com foco na valorização da cultura
açoriana, da pesca artesanal e da relação profunda entre natureza e
alimentação.
Quem visita Florianópolis encontra desde
ostras frescas servidas à beira-mar até pratos com ingredientes nativos da Mata
Atlântica. A gastronomia local une tradição e inovação, com iniciativas
voltadas à sustentabilidade, ao turismo responsável e à valorização da cultura
regional. Floripa, como é carinhosamente chamada, é também polo de chefs criativos
que exploram ingredientes como taioba, butiá, pinhão e frutos do mar em
receitas contemporâneas.
Paraty: o sabor do patrimônio e do
território
Paraty, reconhecida em 2017, é a única das
quatro que une o título de Cidade Criativa da Gastronomia a outros
reconhecimentos da Unesco, como o de Patrimônio Mundial. No pequeno e charmoso
município do litoral fluminense, comer é mergulhar na história da
cana-de-açúcar, da cachaça, da banana, da pesca e da herança afro-indígena.
Além de seus restaurantes e festivais
gastronômicos, Paraty aposta no fortalecimento das comunidades caiçaras,
quilombolas e indígenas, promovendo eventos e feiras que misturam sabores,
saberes e tradições. É comum encontrar pratos como moquecas com banana, caldos
de frutos do mar e doces feitos com mandioca, todos preparados de maneira
artesanal.
Comer é conhecer — e valorizar
O título da Unesco é mais do que um selo: é
um compromisso. Para estar entre as Cidades Criativas da Gastronomia, os
municípios precisam desenvolver políticas públicas, investir na formação de
profissionais, promover a agricultura familiar, estimular a inovação e garantir
acesso à cultura alimentar como um direito.
É um processo contínuo que exige
planejamento, mas que transforma a experiência de quem mora e de quem visita.
Para quem ama bares e restaurantes, saber que está em uma Cidade Criativa da
Gastronomia é um convite à curiosidade e à valorização do que é nosso.
A gastronomia brasileira é múltipla,
diversa e riquíssima. E nessas quatro cidades, ela encontra palco e aplauso. Se
você ainda não conhece Belém, BH, Floripa ou Paraty com olhos (e paladar)
atentos ao que elas têm a oferecer, talvez esteja na hora de planejar sua
próxima viagem — com uma boa mesa como destino.


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