Frutas, ervas, especiarias e destilados locais inspiram coquetéis autorais em diferentes regiões do país A valorização dos ingrediente...
Frutas, ervas,
especiarias e destilados locais inspiram coquetéis autorais em diferentes
regiões do país
A valorização dos
ingredientes brasileiros tem ampliado seu espaço na gastronomia e também na
coquetelaria. Em bares, restaurantes e empresas especializadas, frutas nativas,
especiarias regionais e destilados produzidos localmente vêm ganhando
protagonismo na criação de drinks autorais que buscam traduzir sabores,
histórias e características dos territórios onde são produzidos.
O movimento acompanha
uma mudança no comportamento dos consumidores, que demonstram interesse
crescente por experiências ligadas à cultura local e à origem dos ingredientes.
Para os estabelecimentos, a utilização de insumos regionais representa uma
oportunidade de diferenciação e de construção de identidade.
Sabores locais
inspiram novas criações
Em São Luís (MA), a
Zest Drinks trabalha com coquetelaria para eventos, delivery de drinks prontos
e formação profissional na área. A empresa utiliza ingredientes típicos do
Maranhão na elaboração de receitas autorais. “Quando a gente fala de
ingredientes regionais, eu posso citar vários com o que podemos trabalhar, ou
melhor dizendo, com o que já trabalhamos: bacuri, cupuaçu, o abacaxi turiaçu,
limãozinho, a jussara, siriguela, caju, a tiquira, as cachaças e gin locais e o
famoso guaraná jesus”, afirma a fundadora Thaynara Viegas.
Para a empresária,
alguns ingredientes despertam uma curiosidade imediata dos consumidores. “O
limãozinho é algo surpreendente. O limãozinho é uma fruta ácida, parente da
carambola, tem a mesma textura na boca e é bem azedinho, fica delicioso com
manjericão e tiquira. Dá em cachos e é uma fruta bem comum no Maranhão”,
explica. Outro ingrediente frequentemente utilizado é a Jussara, fruta da mesma
família do açaí. “Outro ingrediente regional bem comum é a Jussara, que fica
delicioso com morango e gin”, destaca.
Para Thaynara, o
desenvolvimento de novos coquetéis parte do conhecimento técnico adquirido ao
longo da carreira. “O processo de criação de um drink autoral parte primeiro do
repertório que um bom bartender tem com os drinks clássicos. Não é difícil criar
um drink autoral se você tem repertório”, afirma.
Amazônia inspira
experiências sensoriais
Em Belém (PA), o
restaurante Caxiri – Cozinha Amazônica utiliza a coquetelaria como extensão da
proposta gastronômica da casa. A ideia é apresentar a diversidade amazônica por
meio das bebidas. “Os drinks surgiram como uma extensão natural da cozinha. Sempre
enxerguei a bebida não apenas como acompanhamento, mas como uma oportunidade de
contar histórias, valorizar ingredientes e criar experiências que dialogam com
o território”, afirma Débora Shornik, chef do restaurante.
A carta reúne
ingredientes como camu-camu, cubiu, puxuri, priprioca, tucumã, cumaru e
diferentes variedades de pimentas amazônicas. Entre os destaques está a
Caipirinha Amazônica, criada a partir de referências regionais. “Ela parte da
clássica caipirinha brasileira, mas ganha identidade própria com a infusão da
flor de jambu. Sua característica dormência provoca uma sensação singular na
língua e na garganta, transformando o ato de beber em uma experiência sensorial
única”, explica.
Segundo Débora, o
desenvolvimento dos drinks começa quase sempre por um ingrediente ou uma
memória ligada à região. “A criação de um drink autoral no Caxiri quase sempre
começa por uma história, um ingrediente ou uma memória”, afirma. A proposta é
utilizar a bebida como ferramenta de valorização cultural. “Buscamos que cada
drink conte uma história e represente um aspecto da Amazônia contemporânea. A
paisagem, os rios, a floresta, as memórias afetivas, os modos de vida e os
encontros culturais também servem de inspiração.”
Consumidor busca
autenticidade
Para os profissionais
do setor, o interesse por ingredientes brasileiros vem crescendo nos últimos
anos. A busca por autenticidade e experiências ligadas ao território aparece
como um dos fatores que impulsionam essa tendência. “Eu percebo muito o brasileiro
e o maranhense mais orgulhoso da nossa identidade, buscando drinks e pratos que
valorizem ingredientes nativos, produtores locais e sabores legitimamente
brasileiros”, afirma Thaynara Viegas.
Débora Shornik observa
comportamento semelhante entre os clientes do Caxiri. “As pessoas não procuram
apenas uma bebida saborosa; elas querem viver uma experiência e conhecer a
história por trás dos ingredientes.”
Ao mesmo tempo, os
estabelecimentos buscam equilibrar criatividade e aceitação do público. “Tudo
tem antes que fazer sentido para o consumidor”, resume Thaynara.
No Caxiri, a
preocupação segue a mesma linha. “A criatividade é fundamental, mas ela precisa
estar a serviço da experiência do cliente. Buscamos expandir o repertório de
sabores das pessoas, sem perder a conexão com o prazer de beber, de forma
descomplicada e sutil”, afirma Débora.
Para as entrevistadas,
a valorização dos ingredientes locais deve continuar influenciando a
coquetelaria brasileira nos próximos anos. Ao lado dessa tendência, cresce
também a oferta de bebidas sem álcool ou com menor teor alcoólico, ampliando as
possibilidades para diferentes perfis de consumidores.
Mais do que acompanhar
uma refeição, os drinks passam a ocupar um papel de destaque na experiência
gastronômica, ajudando a contar histórias, fortalecer identidades regionais e
apresentar ao público a diversidade de sabores existentes no Brasil.