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Venezuela diante do desafio da Agenda 2030

  A pesquisadora e docente Dra. Claritza Peña Zerpa apresenta uma radiografia crítica da Venezuela e alerta para os desafios enfrentados pel...

 


A pesquisadora e docente Dra. Claritza Peña Zerpa apresenta uma radiografia crítica da Venezuela e alerta para os desafios enfrentados pelo sistema educacional diante da migração, da redução do interesse dos jovens pela carreira docente e da necessidade de formar líderes capazes de transformar vidas.

VENEZUELA. — A Venezuela enfrenta uma realidade complexa, na qual pobreza, educação, saúde, migração, serviços públicos, meio ambiente e vulnerabilidade social estão estreitamente relacionados. Analisar cada uma dessas dimensões de forma isolada pode deixar de fora uma parte essencial do problema. Por isso, a Agenda 2030 e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável oferecem uma estrutura a partir da qual é possível observar os principais desafios enfrentados pelo país.

Foi sobre essa realidade que conversou a Dra. Claritza Peña Zerpa, pesquisadora e docente, em entrevista realizada pela Lic. Libia López, jornalista, presidente da FUNDESE e CEO da Radio Estrelinha e da ASSOCIM Brasil, em um encontro dedicado à análise da realidade venezuelana a partir da educação, do desenvolvimento sustentável e dos desafios sociais enfrentados pelo país.

A conversa teve como referência o trabalho acadêmico “Agenda 2030 en Latinoamérica: Una Radiografía Crítica — Estudio de Caso a Profundidad: La Vulnerabilidad Multidimensional en Venezuela”, desenvolvido pelas doutoras Claritza Peña Zerpa e Mixzaida Peña Zerpa. O estudo aborda diferentes indicadores sociais, econômicos, educacionais, ambientais e de serviços, relacionando-os aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e às condições particulares da Venezuela.

Mais do que números, a pesquisa apresenta uma visão ampla das condições que determinam as possibilidades de desenvolvimento da população venezuelana. Pobreza, dificuldades de acesso a serviços essenciais, condições do sistema educacional e de saúde, migração, mudanças demográficas e problemas ambientais fazem parte de uma mesma realidade que exige respostas integradas.

A educação diante de uma geração marcada pela migração

Um dos aspectos que ganhou especial relevância durante a entrevista foi o impacto que os últimos anos provocaram sobre a estrutura educacional venezuelana. A emigração de uma parcela significativa da população, particularmente entre os jovens, não representa apenas um fenômeno demográfico: também levanta questões sobre a disponibilidade futura de profissionais, a renovação de determinadas áreas de trabalho e a capacidade do país de sustentar instituições fundamentais para seu desenvolvimento.

Nesse contexto, a Dra. Peña Zerpa apontou como um dos desafios mais marcantes o fato de que muitos jovens atualmente já não estejam considerando a educação como uma carreira profissional. Para a pesquisadora, essa realidade pode se tornar um fator de enfraquecimento progressivo da estrutura educacional venezuelana, especialmente quando observada em conjunto com o fenômeno migratório dos últimos anos.


A preocupação ganha uma dimensão ainda maior quando se considera quem estará responsável por formar as novas gerações. Não basta garantir a presença de estudantes nas salas de aula; também é necessário assegurar a existência de profissionais preparados e comprometidos para acompanhar seus processos de formação.

A pesquisadora também chamou atenção, durante a entrevista, para uma dinâmica que observa no setor educacional: as instituições privadas começam a captar estudantes muito antes de eles concluírem sua formação, acrescentando novos elementos a um cenário no qual a permanência, a renovação e a distribuição dos talentos humanos assumem especial importância.

O desafio, portanto, não está limitado a saber quantos estudantes a Venezuela possui atualmente. Também é necessário perguntar quem estará diante das salas de aula venezuelanas nos próximos anos e qual será a formação daqueles que assumirão essa responsabilidade.

O desafio silencioso de renovar o educador

Na análise apresentada por Peña Zerpa, a educação ocupa um lugar fundamental na discussão sobre o desenvolvimento venezuelano. O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 estabelece a necessidade de garantir uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade, além de oportunidades de aprendizagem ao longo da vida.

Entretanto, para a pesquisadora, falar de educação não pode se limitar à infraestrutura, cobertura, matrícula ou estatísticas. Também significa falar sobre as pessoas que tornam possível o processo educacional.

É justamente nesse ponto que ganha especial relevância sua preocupação com a redução do interesse de determinados jovens em escolher a docência como profissão. A formação de novos educadores constitui uma condição necessária para garantir a continuidade e a renovação do sistema educacional.

Durante a entrevista, Peña Zerpa também destacou a importância de que os profissionais da educação mantenham uma disposição permanente para a formação e a renovação pessoal e profissional. Em sua perspectiva, ser educador significa muito mais do que transmitir conhecimentos: significa assumir uma responsabilidade direta sobre a vida e o futuro de outras pessoas.

A educação como compromisso de transformar vidas

Um dos aspectos mais significativos da conversa foi a maneira como a Dra. Claritza Peña Zerpa abordou sua própria concepção de docência. Durante a entrevista, foi possível observar seu profundo amor pela educação e uma forte vocação para o ensino, elementos que estiveram constantemente presentes ao tratar tanto dos desafios atuais quanto das possibilidades futuras do sistema educacional venezuelano.

Sua visão coloca o educador como um agente fundamental de transformação social. Nessa perspectiva, quem decide tornar-se professor assume um compromisso com a vida de seus estudantes e, ao mesmo tempo, com seu próprio processo de crescimento.

Para Peña Zerpa, quando uma pessoa decide ser educadora, assume o compromisso de mudar a vida de outras pessoas, mas também adquire a responsabilidade de continuar se transformando e se renovando. A profissão docente, portanto, exige aprendizagem permanente, capacidade de adaptação e consciência clara da influência que um educador pode exercer sobre aqueles que passam por suas salas de aula.

Essa concepção também se estende àqueles que ocupam cargos de direção nas instituições educacionais. A pesquisadora mantém grandes expectativas em relação aos gestores e considera fundamental que aqueles que lideram escolas e centros educacionais sejam capazes de sonhar com a possibilidade de transformar vidas.

A gestão educacional, sob essa perspectiva, não deve ser entendida exclusivamente como uma função administrativa. Também representa uma oportunidade de construir projetos, inspirar equipes, acompanhar professores e criar condições para que os estudantes possam se desenvolver.

Uma radiografia que vai além da educação

Embora a educação tenha ocupado um espaço central na entrevista, o trabalho acadêmico apresentado por Peña Zerpa aborda uma realidade venezuelana consideravelmente mais ampla.

A pesquisa analisa a vulnerabilidade multidimensional do país e examina diferentes componentes relacionados à Agenda 2030. Entre eles estão pobreza, educação, saúde, migração, serviços essenciais, condições ambientais e cooperação internacional.



No campo da pobreza, o estudo analisa os desafios relacionados ao cumprimento do ODS 1 e apresenta indicadores vinculados às condições socioeconômicas da população. Na área educacional, aborda a evolução da cobertura e diferentes fatores que afetam a frequência e a permanência dos estudantes, incluindo dificuldades relacionadas a serviços, alimentação, ausência de profissionais e necessidades econômicas.

A saúde também constitui um dos componentes analisados. O estudo incorpora informações relacionadas às pessoas que relatam problemas de saúde e àquelas que não conseguem ter acesso ao atendimento médico, além de observar diferenças associadas às condições de pobreza, pertencimento indígena e acesso a especialistas.

O componente demográfico também é fundamental. A migração e suas consequências sobre a estrutura populacional, o envelhecimento e a composição dos lares fazem parte da radiografia desenvolvida pelas pesquisadoras.

Serviços essenciais e condições de vida

A pesquisa também dedica atenção a dois elementos que possuem impacto direto sobre a qualidade de vida da população: eletricidade e água.

As dificuldades relacionadas a esses serviços não podem ser analisadas apenas como problemas técnicos ou de infraestrutura. Elas têm consequências sobre a educação, a saúde, o trabalho, a economia familiar e as condições gerais de vida.

Em uma realidade multidimensional, uma interrupção de serviços pode tornar-se um fator capaz de aprofundar outras vulnerabilidades. Uma família que enfrenta dificuldades econômicas pode, simultaneamente, ter problemas de acesso a determinados serviços; um estudante pode encontrar obstáculos para continuar sua formação; e uma instituição educacional pode ter seu funcionamento afetado.

Essa interconexão constitui justamente uma das chaves da pesquisa apresentada por Peña Zerpa: os problemas sociais não acontecem de forma independente; eles estão relacionados e podem reforçar uns aos outros.



A dimensão ambiental também faz parte do futuro venezuelano

A radiografia desenvolvida pelas pesquisadoras também incorpora a dimensão ambiental e aborda questões relacionadas ao Arco Mineiro, ao bioma amazônico e ao Lago de Maracaibo, entre outros aspectos ligados à sustentabilidade.

A dimensão ambiental ganha especial importância quando a Agenda 2030 é analisada a partir da realidade venezuelana. O desenvolvimento econômico, a proteção dos ecossistemas e as condições de vida das comunidades fazem parte de uma discussão que exige considerar simultaneamente as necessidades atuais e as consequências para as próximas gerações.

A pesquisa apresenta, assim, uma perspectiva crítica sobre a relação entre desenvolvimento, sustentabilidade, território e exploração dos recursos naturais, incorporando também uma perspectiva decolonial sobre o conceito tradicional de desenvolvimento sustentável.

O desafio de conhecer a realidade por meio dos dados

Outro ponto abordado no estudo está relacionado à disponibilidade de informações e estatísticas sobre a Venezuela. A pesquisa levanta questões sobre a continuidade e a disponibilidade de determinados dados oficiais e recorre a fontes alternativas para analisar diferentes dimensões da realidade nacional.

Essa questão é particularmente relevante para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, uma vez que as políticas públicas dependem de informações que permitam conhecer a situação da população, identificar necessidades e avaliar resultados.

Sem dados suficientes, atualizados e comparáveis, torna-se mais difícil compreender com precisão a dimensão de determinados problemas e estabelecer mecanismos adequados para enfrentá-los.

Por isso, entre as propostas derivadas da análise está a necessidade de fortalecer a transparência estatística e disponibilizar informações que permitam compreender com maior precisão a realidade venezuelana.

A cooperação internacional e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

O trabalho também analisa a participação de organismos internacionais na Venezuela e a contribuição de diferentes agências das Nações Unidas para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

O material identifica ações relacionadas a áreas como educação, saúde, alimentação, agricultura, proteção social, desenvolvimento, migração e adaptação climática. A pesquisa inclui referências a organismos como FAO, OIM, ONU Mulheres, UNAIDS, PNUD, UNFPA, UNICEF, ONUDI, OMS, ACNUR e PMA, entre outros.

O documento apresenta, assim, uma pergunta fundamental: para onde vão os recursos e de que maneira as ações das Nações Unidas contribuem para o cumprimento dos ODS na Venezuela?

Um olhar crítico sobre a Venezuela, mas com esperança

Apesar da complexidade do cenário apresentado, a conversa com Claritza Peña Zerpa não foi marcada por uma visão de resignação.

Ao contrário, um dos elementos que mais se destacou durante a entrevista foi sua confiança na possibilidade de melhorar. A pesquisadora acredita que as pessoas possuem um papel determinante nos processos de transformação e que as circunstâncias atuais não devem ser interpretadas como uma sentença definitiva sobre o futuro da Venezuela.



Sua convicção pode ser resumida em uma ideia que expressou durante a conversa: “somos nós que fazemos a diferença”.

Nessa perspectiva, a transformação do país também depende das decisões individuais e coletivas daqueles que permanecem comprometidos com a educação, a pesquisa, a liderança e o desenvolvimento de suas comunidades.

A esperança que transmite não ignora as dificuldades. Ao contrário, parte do reconhecimento delas e, justamente por isso, coloca uma responsabilidade especial sobre aqueles que têm a possibilidade de agir.

O futuro também depende daqueles que decidirem educar

A preocupação com a redução do interesse dos jovens pela carreira docente ganha, assim, uma dimensão que ultrapassa o campo profissional.

A Venezuela pode enfrentar dificuldades econômicas, sociais, demográficas, ambientais e institucionais, mas a capacidade de uma sociedade de se reconstruir e avançar também depende da existência de pessoas dispostas a formar as novas gerações.

Daí a importância que Peña Zerpa atribui aos jovens que decidem tornar-se educadores e aos profissionais que já fazem parte do sistema educacional.

Para a pesquisadora, educar é comprometer-se com a transformação dos outros e com a própria transformação. É assumir que cada geração precisa de educadores capazes de se atualizar, compreender as mudanças de seu entorno e manter viva a vocação de ensinar.

É justamente nesse ponto que sua mensagem assume um caráter de esperança: ainda é possível construir uma educação capaz de transformar vidas se aqueles que fazem parte dela estiverem dispostos a assumir esse compromisso.

“Somos nós que fazemos a diferença”

A entrevista deixou uma conclusão que vai além dos indicadores da Agenda 2030.

Os números permitem observar a dimensão dos desafios, mas são as pessoas que, em última instância, podem produzir mudanças.

No caso da educação venezuelana, isso significa apostar em jovens que voltem a considerar a docência como uma profissão de futuro, em educadores comprometidos com sua formação permanente e em gestores capazes de imaginar instituições educacionais que não se limitem a funcionar, mas que sejam capazes de transformar.

Durante a conversa, a paixão de Claritza Peña Zerpa pela docência foi evidente. Seu discurso esteve marcado por uma profunda convicção sobre o valor da educação e pela certeza de que aqueles que escolhem essa profissão possuem uma possibilidade concreta de influenciar a vida de outras pessoas.

Sua esperança na Venezuela, portanto, não se apresenta como uma expectativa abstrata. Está vinculada à ação humana, ao compromisso profissional e à capacidade de cada pessoa de assumir sua responsabilidade dentro da sociedade.

Porque, para uma professora que fez da educação uma vocação, transformar o futuro começa também por transformar aqueles que terão a responsabilidade de construí-lo.

Assista à entrevista completa

Para conhecer diretamente as reflexões da Dra. Claritza Peña Zerpa, suas análises sobre a realidade venezuelana, os desafios da educação e sua visão sobre o futuro do país, convidamos nossos leitores a assistir à entrevista completa realizada pela Lic. Libia López, presidente da FUNDESE, jornalista e CEO da Radio Estrelinha e da ASSOCIM Brasil.

ENTREVISTA COMPLETA — CANAL DO YOUTUBE DA FUNDESE




Fonte e material de referência

As informações centrais deste artigo têm como base a pesquisa apresentada pelas doutoras Claritza Peña Zerpa e Mixzaida Peña Zerpa, “Agenda 2030 en Latinoamérica: Una Radiografía Crítica — Estudio de Caso a Profundidad: La Vulnerabilidad Multidimensional en Venezuela”, além dos aspectos e reflexões apresentados pela Dra. Claritza Peña Zerpa durante a entrevista realizada para este portal.




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