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Brasil diante das urnas: o que defendem os 12 candidatos à Presidência

  Por Libia López Da esquerda à direita, propostas, discursos e os caminhos que podem definir o próximo governo brasileiro O Brasil chega ao...

 

Por Libia López

Da esquerda à direita, propostas, discursos e os caminhos que podem definir o próximo governo brasileiro

O Brasil chega ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 este 04 de outubro, em um ambiente de forte tensão política, marcado por disputas sobre economia, segurança pública, papel do Estado, instituições, religião, relações internacionais e soberania.

A eleição presidencial terá 12 candidaturas. O Tribunal Superior Eleitoral confirmou as chapas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Augusto Cury (Avante), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata). A candidatura de Pablo Marçal foi indeferida pelo TSE e Leonardo Avalanche, que havia assumido a chapa do PRTB, posteriormente desistiu.

Os programas oficiais estão disponíveis no sistema eleitoral e permitem observar uma eleição com projetos bastante diferentes.

Doze candidaturas, diferentes projetos de país

Augusto Cury, do Avante, apresenta uma candidatura voltada à tentativa de superar a polarização. Seu programa fala em "gestão da emoção" e "cultura da paz", além de propor semipresidencialismo, mudanças no funcionamento do STF, déficit zero, incentivo ao empreendedorismo, educação socioemocional e utilização de inteligência artificial em áreas como segurança pública.

Clariana Barão, do Democracia Cristã, apresenta um programa centrado na modernização do Estado, proteção social, defesa de mulheres e crianças, alfabetização e valorização dos professores. Na economia, defende apoio aos pequenos negócios e responsabilidade fiscal. Na segurança, seu programa dá destaque à inteligência nas fronteiras e ao combate financeiro às organizações criminosas.

Edmilson Costa, do PCB, apresenta um projeto de ruptura com o modelo econômico atual. O programa propõe uma transição ao socialismo, nacionalização do sistema financeiro, expropriação do agronegócio, suspensão do pagamento da dívida pública, estatização de setores como saúde e transporte e mudanças profundas na estrutura política brasileira.

Hertz Dias, do PSTU, também apresenta um projeto socialista e de ruptura com o capitalismo. Entre suas propostas estão a estatização de grandes empresas, bancos e agronegócio, aumento do salário mínimo, fim da escala 6x1, tarifa zero, desmilitarização das polícias militares, descriminalização das drogas e legalização do aborto pelo SUS.

Renan Santos, do Missão, apresenta um projeto de direita com forte ênfase em ajuste fiscal e segurança pública. Seu programa prevê redução de municípios considerados inviáveis financeiramente, superpresídios e utilização das Forças Armadas contra facções. Também propõe substituir o Bolsa Família por frentes de trabalho, alterar o sistema de cotas e investir em inteligência artificial e tecnologias estratégicas.

Romeu Zema, do Novo, defende redução do tamanho do Estado, privatização de estatais, corte de gastos, redução de impostos e flexibilização trabalhista. Na segurança, propõe endurecimento penal e combate militarizado às organizações criminosas. Também apresenta mudanças na relação entre programas sociais, mercado de trabalho e Estado.

Ronaldo Caiado, do PSD, combina uma agenda de responsabilidade fiscal com forte ênfase na segurança pública. Seu programa prevê contenção de despesas, integração das forças policiais contra organizações criminosas, agravamento de penas e redução da maioridade penal para 16 anos em crimes graves. Também propõe mudanças políticas, como o fim da reeleição no Executivo e o voto distrital misto.

Rui Costa Pimenta, do PCO, apresenta um programa de caráter revolucionário e socialista, com estatização do sistema financeiro, não pagamento da dívida pública, cancelamento de privatizações, imposto sobre grandes fortunas e mudanças profundas nas instituições, incluindo a extinção do STF.

Samara Martins, da Unidade Popular, defende a construção de uma sociedade socialista, estatização de bancos e empresas privatizadas, interrupção do pagamento da dívida pública, aumento do salário mínimo, fim da escala 6x1, passe livre nos transportes e ampliação do acesso ao ensino superior.

Wilson Grassi, do Democrata, apresenta como eixo econômico a desburocratização e a criação de um Imposto Único Federal sobre transações financeiras. Seu programa também fala em digitalização do Estado, mudanças na saúde, habitação e combate às organizações criminosas.

Restam as duas candidaturas que concentram a maior atenção da disputa nacional: Lula e Flávio Bolsonaro.

LULA: CONTINUIDADE, POLÍTICAS SOCIAIS E UM ESTADO MAIS ATUANTE

Luiz Inácio Lula da Silva busca um novo mandato presidencial pelo PT, repetindo a chapa com Geraldo Alckmin. Seu programa coloca no centro a redução das desigualdades, o fortalecimento dos serviços públicos, programas de transferência de renda, transição ecológica, planejamento estatal e inserção internacional do Brasil.

Entre as propostas apresentadas estão aumento real do salário mínimo, criação de um Ministério da Segurança Pública, ampliação do Farmácia Popular e investimentos em defesa e soberania nacional.

Na área social, uma das medidas mais recentes do governo foi o reajuste de 15,04% do Bolsa Família. O valor mínimo passou de cerca de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio passou de R$ 675 para R$ 777. A medida começou a produzir efeitos financeiros em 1º de outubro. O governo afirmou que o reajuste recompõe a inflação acumulada.

A proximidade do anúncio com a eleição provocou críticas dos adversários. Flávio Bolsonaro classificou o aumento como uma medida eleitoral e afirmou que Lula teria aumentado o benefício em um "ato de desespero". O governo, por sua vez, apresentou o reajuste como reposição inflacionária prevista na legislação do programa.

Em campanha, Lula também reforçou sua posição sobre segurança e soberania. Em discurso na ONU, afirmou:

"Não vamos transferir a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo."

Na mesma ocasião, defendeu cooperação internacional contra o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro, mas rejeitou a participação de forças estrangeiras no combate ao crime dentro do território brasileiro.

Outra declaração recente, durante entrevista ao Flow Podcast, gerou checagens jornalísticas. Entre as afirmações verificadas pela Agência Lupa estava a declaração de Lula de que o Brasil teria crescido acima de 3% somente depois de seu retorno à Presidência. A Lupa classificou essa afirmação como falsa, mostrando a importância de confrontar declarações eleitorais com dados antes de reproduzi-las como fatos.

O caso demonstra também uma característica da atual campanha: discursos de candidatos, respostas de adversários e informações divulgadas nas redes sociais passaram a ser parte de uma disputa permanente pela interpretação dos fatos.

FLÁVIO BOLSONARO: SEGURANÇA, ESTADO MAIS ENXUTO E CONTINUIDADE DO CAMPO BOLSONARISTA

Flávio Bolsonaro, senador pelo PL e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, apresenta sua candidatura como continuidade de um campo político que ganhou força nacionalmente a partir de 2018.

Seu programa concentra grande parte das propostas na segurança pública.

Entre as medidas estão o enquadramento de organizações criminosas como terroristas, redução da maioridade penal para 16 anos, endurecimento das penas, castração química para condenados por estupro e restrições à progressão de regime para crimes considerados hediondos. Na economia, o programa defende contenção de gastos, desburocratização e redução da carga tributária.

Durante um ato no Rio de Janeiro, Flávio resumiu sua proposta de segurança com a frase:

"Vamos tirar os bandidos dos territórios do Rio de Janeiro e devolver o território para o povo."

O programa também propõe maior controle das fronteiras e integração entre as forças de segurança.

Outro elemento marcante da campanha é a dimensão religiosa.

Em agosto, Flávio declarou:

"Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo."

A declaração provocou repercussão e posteriormente foi explicada pela campanha como uma referência simbólica à oração que seria realizada durante a posse.

Recentemente setembro, Flávio também entrou em conflito público com a Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil (CNBB), depois de conteúdos nas redes sociais associarem seu nome a uma suposta proposta contra Nossa Senhora Aparecida. A informação foi desmentida pelo candidato e pela imprensa. A CNN verificou que o projeto mencionado nas publicações havia sido apresentado anos antes por outro parlamentar e estava arquivado.

A controvérsia mostra como a religião passou a ocupar espaço relevante na campanha presidencial.

RELIGIÃO E ELEIÇÃO

O fator religioso não pode ser ignorado na análise do cenário eleitoral.

Segundo o Censo 2022 do IBGE, 56,7% da população de 10 anos ou mais se declarou católica e 26,9% se declarou evangélica. A parcela sem religião chegou a 9,3%.

Nas pesquisas eleitorais recentes, a diferença entre os grupos religiosos também aparece de maneira significativa. Levantamento Datafolha realizado entre 29 de setembro e 1º de outubro apontou vantagem de Lula entre católicos e de Flávio entre evangélicos.

Isso não significa que todos os evangélicos votem em um mesmo candidato ou que todos os católicos tenham uma preferência eleitoral uniforme.

Mas demonstra que religião, identidade e política estão entre os elementos que fazem parte da disputa presidencial de 2026.

O TARIFAÇO E A DIMENSÃO INTERNACIONAL DA CAMPANHA

A eleição também foi atravessada por um episódio que ultrapassou as fronteiras brasileiras: o conflito comercial com os Estados Unidos.

As tarifas impostas pelo governo norte-americano ao Brasil provocaram uma crise diplomática e comercial e entraram diretamente no discurso eleitoral.

Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, teve participação política no episódio e manteve contatos nos Estados Unidos. Posteriormente, o STF condenou Eduardo Bolsonaro no caso relacionado à tentativa de pressionar autoridades brasileiras por meio de ações junto ao governo norte-americano.

O episódio passou a integrar o debate sobre soberania, relações com os Estados Unidos e posicionamento internacional do Brasil.

Para a campanha de Lula, o episódio reforçou o discurso de soberania nacional.

Para o campo bolsonarista, a relação com os Estados Unidos e a necessidade de reaproximação internacional também ganharam importância.

O QUE PODE MUDAR DEPOIS DAS URNAS?

Não é possível afirmar antecipadamente qual será o resultado ou quais medidas serão efetivamente implementadas. O que pode ser feito é observar os caminhos indicados pelos próprios candidatos.

Em um eventual novo governo Lula

As declarações e o programa apresentado apontam para a continuidade de uma política baseada em programas sociais, fortalecimento do Estado, serviços públicos, integração internacional e defesa da soberania.

O reajuste do Bolsa Família já oferece uma indicação concreta da prioridade dada às políticas de transferência de renda.

Na segurança, Lula também sinaliza uma combinação entre fortalecimento das instituições brasileiras, inteligência e cooperação internacional.

Na política externa, suas falas recentes indicam continuidade de uma postura de defesa da autonomia brasileira e do multilateralismo.

Em um eventual governo Flávio Bolsonaro

O programa e os discursos indicam maior prioridade para segurança pública, endurecimento penal, controle territorial, fronteiras, redução de gastos e desoneração tributária.

Na dimensão institucional, Flávio defende limitações a decisões monocráticas do STF e o fim da reeleição no Executivo.

Na área social, o candidato afirmou que pretende manter o Bolsa Família, embora associado a políticas de qualificação profissional, emprego e empreendedorismo. Em um ato de campanha, declarou:

"Vou estender a mão para que possam se qualificar, se capacitar, concluir seus estudos."

Assim, há uma diferença importante entre os dois projetos: Lula apresenta a transferência de renda e a ampliação das políticas sociais como elementos estruturantes de seu projeto; Flávio afirma que pretende manter o Bolsa Família, mas o associa a uma estratégia mais voltada à capacitação, emprego e empreendedorismo.

E O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O BRASIL?

A eleição de 2026 coloca diante dos brasileiros projetos muito diferentes de Estado, economia, segurança, políticas sociais e relações internacionais.

No campo de Lula, aparecem com maior destaque a redução das desigualdades, os programas sociais, os serviços públicos, a transição ecológica, a integração internacional e a continuidade de políticas do atual governo.

No campo de Flávio Bolsonaro, aparecem com maior destaque segurança, endurecimento penal, controle das fronteiras, redução de gastos, desoneração e uma agenda institucional de mudanças na relação entre os Poderes.

Entre os demais candidatos existem propostas que vão desde uma reforma liberal do Estado até projetos de ruptura com o capitalismo e construção de um modelo socialista.

É justamente essa diversidade que torna a eleição presidencial de 2026 um momento decisivo para o debate sobre o futuro do país.

Para quem vive no Brasil — brasileiros, migrantes, refugiados e pessoas de diferentes origens — as decisões do próximo governo poderão repercutir em áreas que vão muito além da política eleitoral: emprego, renda, segurança, serviços públicos, relações internacionais, fronteiras e direitos.

O debate eleitoral termina nas urnas. As consequências das escolhas, porém, permanecem durante todo o próximo mandato.

Que o Brasil atravesse este momento com respeito às diferenças, responsabilidade institucional e compromisso com todos os seus habitantes. Que o resultado das urnas seja acompanhado por diálogo, paz e respeito à democracia.



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