Brasil é o segundo país que mais busca por remédios como Ozempic e Mounjaro, e tendência já influencia cardápios e operação do setor Por L...
Brasil é o segundo país que mais busca
por remédios como Ozempic e Mounjaro, e tendência já influencia cardápios e
operação do setor
Por Lucas Machado ABRASEL
O Brasil ocupa hoje o segundo lugar no
ranking mundial de buscas pelos termos Ozempic e Mounjaro, dois
dos remédios mais conhecidos da classe GLP-1, usados para controle de peso e
emagrecimento. Além de transformar a vida de milhões de pessoas, esse tipo de
medicamento começa a impactar bares e restaurantes. Isso porque os usuários
tendem a ter menos apetite, pedem porções menores e, em alguns casos, até
reduzem a frequência de idas a estabelecimentos fora do lar.
Nos
Estados Unidos, o reflexo já é visível.
Restaurantes criaram cardápios adaptados para esse público, com versões
compactas de pratos tradicionais, mini coquetéis e menus degustação reduzidos. A
ideia é atender quem passou a comer menos, mas não quer abrir mão da
experiência gastronômica. Em Nova York, o Clinton Hall lançou a chamada “mini
refeição pequenininha”, com hambúrguer menor, batata frita em porção reduzida e
até uma mini cerveja. O sucesso foi imediato, principalmente entre clientes que
usam remédios para emagrecer.
Esse movimento desperta a atenção de
empresários brasileiros. Afinal, se a demanda por esses medicamentos cresce no
país, o setor de alimentação fora do lar precisa entender como se adaptar para
não perder clientes — e, mais que isso, como transformar a mudança em
oportunidade.
O impacto dos remédios na rentabilidade
e no desperdício
O grande ponto de interrogação para os
empresários é: se as pessoas comem menos, o ticket médio vai cair? Para Adriana
Lara, líder de Educação e Produtividade da Abrasel, essa é uma preocupação
legítima, mas que pode ser encarada como uma chance de repensar modelos de
cardápio e de operação.
“Porções menores podem reduzir o ticket
médio, mas também permitem ajustar preços e margens, além de incentivar o
consumo de acompanhamentos e bebidas. Na operação, simplificam a produção,
reduzem desperdícios e exigem revisão das fichas técnicas e do planejamento de
compras”, afirma.
Ou seja, em vez de encarar o uso de remédio
como uma ameaça, bares e restaurantes podem se adaptar. Em alguns casos, a
redução de tamanho abre espaço para maior diversificação. O cliente pode pedir
duas pequenas entradas em vez de um prato principal, ou experimentar sobremesas
que antes não caberiam após uma refeição maior. Isso amplia a experiência e
pode equilibrar o faturamento.
Outro ponto positivo é o combate ao
desperdício de alimentos, um dos grandes desafios do setor no Brasil. “Pratos
mais ajustados à real necessidade do cliente reduzem sobras no prato e perdas
na cozinha, ajudando a enfrentar um dos maiores problemas do setor”, reforça
Adriana.
Cardápios menores e adaptação como
diferencial competitivo
Oferecer cardápios
adaptados a esse público não deve ser visto apenas como ajuste, mas
como diferencial competitivo. Nos Estados Unidos, já existem redes que anunciam
explicitamente menus pensados para usuários de remédios GLP-1. É o caso da Smoothie
King, que criou um “cardápio de apoio ao GLP-1”, com smoothies ricos em
proteínas, fibras e baixo teor de açúcar.
No Brasil, alguns estabelecimentos de alta
gastronomia já oferecem meia porção, pratos individuais ou menus degustação
mais curtos, ainda que não diretamente associados ao consumo de remédio. Esse
tipo de flexibilidade pode se tornar cada vez mais relevante.
Para Adriana Lara, a tendência deve se
consolidar também no mercado brasileiro. “O Brasil pode caminhar para formatos
já comuns em outros países, como menus degustação, meia porção, pratos
individuais e opções balanceadas”, avalia.
A mudança exige, no entanto, atenção
redobrada em relação à segurança dos alimentos. “É preciso dar atenção na
manipulação dos ingredientes fracionados, pois isso aumenta o risco de
contaminação. O armazenamento adequado de porções menores é essencial, assim
como refazer fichas técnicas para garantir padronização e custos corretos”,
orienta Adriana.
Embora os remédios para emagrecer
influenciem a forma como as pessoas consomem, a experiência continua sendo o
que leva os clientes a bares e restaurantes. A ida a um estabelecimento envolve
convivência, celebração, lazer e hospitalidade. Por isso, empreendimentos que
adaptarem seus cardápios sem perder de vista a qualidade do serviço e o
ambiente acolhedor terão vantagem competitiva.
Especialistas internacionais apontam que
muitos clientes não saem para comer se não encontram opções adequadas ao seu
apetite atual. Essa constatação reforça a importância de cardápios inclusivos,
que contemplem desde grandes refeições até versões compactas. Isso evita que um
público crescente — usuários de remédio para emagrecer — deixe de frequentar
bares e restaurantes.
Além disso, o apelo visual também conta.
Mini coquetéis, pratos em versões menores, menus degustação e sobremesas
fracionadas geram desejo nas redes sociais, outro fator que atrai clientes e
transforma a tendência em estratégia de marketing.
Com milhões de brasileiros interessados em
usar ou já consumindo remédios como Ozempic e Mounjaro, bares e restaurantes
precisam se adaptar. A mudança não deve ser vista como ameaça, mas como parte
de um setor que historicamente sempre se ajustou às transformações sociais. O
cliente que come menos pode gastar em experiências diferentes: uma bebida
autoral, uma sobremesa criativa ou um prato compartilhado. Para os empresários,
a chave está em testar novos formatos, ajustar fichas técnicas e encontrar
equilíbrio entre rentabilidade e satisfação do cliente.
Restaurante a quilo: solução para novos
hábitos de consumo
Para consumidores que usam remédios de
emagrecimento ou simplesmente preferem comer menos, os restaurantes a quilo
oferecem uma solução prática. O formato permite que cada cliente monte o prato
de acordo com a fome do momento, evita desperdícios e garante flexibilidade
para variar sabores e quantidades.
A Abrasel valoriza esse modelo por meio do
concurso O
Quilo é Nosso, que neste ano acontece entre os dias 16 e 26
de setembro e reúne estabelecimentos de todo o país em uma celebração
anual. Clientes e jurados técnicos avaliam pratos criados especialmente para a
competição, premiam os melhores em etapas estaduais e nacional. Mais do que uma
disputa gastronômica, o concurso estimula qualidade, inovação e reforça a
identidade cultural do restaurante a quilo como símbolo da alimentação fora do
lar.
Rodrigo Zamperlini, dono do restaurante
Mercato Brazil Manauara, em Manaus, campeão do concurso em 2017, confirma essa
percepção. “Nós temos clientes recorrentes que estão fazendo tratamento para
emagrecimento e que ressaltam a importância da variedade no cardápio, inclusive
das saladas, para que possam seguir com a dieta balanceada e, ao mesmo tempo,
variar o que escolhem para servir.”


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