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Venezuela prepara seu próximo presidente? Os sinais de uma transição silenciosa impulsionada pelos Estados Unidos

  Movimentos diplomáticos, novos interlocutores da oposição e operações de segurança levantam questionamentos sobre quem poderá liderar a pr...

 


Movimentos diplomáticos, novos interlocutores da oposição e operações de segurança levantam questionamentos sobre quem poderá liderar a próxima etapa política venezuelana e qual será o papel de Washington nesse processo.


Durante anos, a política venezuelana foi marcada por uma narrativa de confronto. De um lado, um governo determinado a permanecer no poder. Do outro, uma oposição que apostava em pressão internacional, sanções econômicas e isolamento diplomático para provocar mudanças.

No entanto, os acontecimentos dos últimos meses sugerem que uma nova fase pode estar começando.

Uma fase menos ruidosa.

Menos ideológica.

E muito mais estratégica.

A recente notícia sobre o fortalecimento da figura de Dinorah Figuera como interlocutora em possíveis negociações políticas chamou a atenção de observadores internacionais. Para muitos, trata-se apenas de mais um movimento dentro da oposição. Para outros, pode representar algo muito maior: o início de uma reorganização política cuidadosamente planejada para preparar o terreno da próxima etapa institucional da Venezuela.

A questão central não é se Dinorah Figuera substituirá Maria Corina Machado.

A questão é por que sua figura surge agora.

Maria Corina continua sendo uma das líderes mais populares da oposição venezuelana. Sua imagem foi construída ao longo de anos de enfrentamento direto ao chavismo e sua capacidade de mobilização permanece evidente.

Mas processos de transição raramente dependem de uma única liderança.

A história demonstra que quando mudanças políticas profundas estão sendo negociadas, surgem novos atores capazes de dialogar com diferentes setores do poder.

Dinorah Figuera possui características que despertam interesse nesse contexto.

Foi presidente da Assembleia Nacional de 2015.

Possui experiência institucional.

Passou anos no exílio.

Mantém um perfil menos confrontacional.

E pode representar uma ponte entre setores que dificilmente aceitariam uma negociação liderada exclusivamente por figuras associadas ao discurso de ruptura total.

Essa lógica não é nova.

Os Estados Unidos já adotaram estratégias semelhantes em diversas regiões do mundo.

Após o colapso da União Soviética, Washington apoiou lideranças capazes de garantir estabilidade institucional durante a transição dos países do Leste Europeu.

Na África do Sul, durante o fim do apartheid, os esforços internacionais concentraram-se não apenas na mudança de governo, mas também na preservação das estruturas necessárias para evitar o caos institucional.

Em ambos os casos, o objetivo principal não era simplesmente remover um grupo do poder.

Era construir um cenário governável para o dia seguinte.

Talvez seja justamente essa a pergunta que começa a surgir na Venezuela.

Quem governará o dia seguinte?

Outro aspecto que chama atenção é a mudança no padrão de atuação dos Estados Unidos.

Durante muitos anos predominou uma política de pressão aberta.

Sanções.

Discursos contundentes.

Reconhecimento de lideranças paralelas.

Hoje, entretanto, observa-se algo diferente.

Uma atuação mais discreta.

Mais pragmática.

Mais voltada para negociações e construção de consensos.

Henry Kissinger, um dos mais influentes estrategistas da política externa norte-americana, afirmou certa vez que "os Estados não possuem amigos permanentes; possuem interesses permanentes".

Essa frase ajuda a compreender o momento atual.

Para Washington, a Venezuela não representa apenas uma questão ideológica.

Representa petróleo.

Migração.

Segurança regional.

Combate ao crime organizado.

Influência chinesa.

Influência russa.

Influência iraniana.

Em outras palavras, a estabilidade venezuelana tornou-se um interesse estratégico.

Nesse contexto, outro elemento merece atenção.

O avanço das ações contra o Tren de Aragua.

A organização criminosa, que nasceu em território venezuelano e expandiu suas operações para diversos países da América Latina, passou a ser tratada como uma ameaça regional.

Operações recentes contra integrantes da organização levantaram questionamentos entre analistas sobre o nível de cooperação existente entre diferentes governos e agências de inteligência.

Embora muitos detalhes permaneçam fora do conhecimento público, especialistas em segurança observam que operações complexas contra estruturas criminosas transnacionais frequentemente exigem compartilhamento de informações, monitoramento internacional e coordenação entre diferentes instituições.

Mais uma vez, surge um padrão interessante.

Enquanto o debate público continua focado em discursos políticos, uma série de ações concretas parece ocorrer longe dos holofotes.

Talvez essa seja a principal característica do momento atual.

O silêncio.

Ao contrário do que ocorreu em períodos anteriores, as mudanças recentes não têm sido anunciadas em grandes pronunciamentos.

Elas aparecem em pequenos sinais.

Em reuniões discretas.

Em novos interlocutores.

Em acordos que raramente ocupam as manchetes principais.

Sun Tzu escreveu há mais de dois mil anos que "a melhor vitória é aquela conquistada sem combate".

A frase é frequentemente utilizada para explicar conflitos modernos nos quais a influência política substitui a força militar como principal instrumento de poder.

Sob essa perspectiva, a Venezuela pode estar vivenciando uma transformação muito diferente daquela imaginada por muitos observadores durante a última década.

Em vez de uma ruptura abrupta, o país pode caminhar para uma transição negociada.

Em vez de uma mudança explosiva, uma reorganização gradual.

Em vez de uma única liderança, um conjunto de atores preparados para administrar uma nova etapa.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quem vencerá uma futura eleição.

A verdadeira pergunta é outra:

Quem está sendo preparado para ser aceito simultaneamente pela população venezuelana, pelas instituições do Estado, pelos atores internacionais e pelos centros de poder que influenciam os rumos da região?

A resposta ainda não é clara.

Mas os movimentos recentes indicam que as peças do tabuleiro já estão em movimento.

E como acontece nos grandes jogos geopolíticos, as decisões mais importantes costumam ser tomadas muito antes de se tornarem visíveis para o público.


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