De disquetes de 1996 aos sistemas auditados de 2026, a urna eletrônica brasileira completa três décadas de evolução tecnológica, com mecan...
De disquetes de 1996 aos sistemas auditados de 2026, a urna eletrônica brasileira completa três décadas de evolução tecnológica, com mecanismos de segurança, testes e fiscalização.
O Brasil chega às Eleições Gerais de 2026 utilizando 563.910 urnas eletrônicas para atender mais de 158 milhões de eleitoras e eleitores. O equipamento, hoje presente em todo o território nacional, começou a ser utilizado em 1996 e passou por diferentes gerações tecnológicas ao longo de três décadas.
A primeira versão da urna eletrônica tinha processador Intel 386SX, 2 MB de memória e utilizava dois disquetes de 1,44 MB. O equipamento era muito diferente dos modelos utilizados atualmente, mas já representava uma mudança significativa no processo eleitoral brasileiro.
Desde então, a tecnologia passou por sucessivas atualizações. A questão, entretanto, permanece atual: quais mecanismos existem para proteger o voto eletrônico e permitir a fiscalização do processo eleitoral?
Da informatização à urna eletrônica
A informatização da Justiça Eleitoral brasileira começou antes da criação da urna eletrônica. Em 1985, o cadastro eleitoral começou a ser informatizado. Em 1994, a totalização dos votos já era realizada com auxílio de computadores.
Em 1995, teve início o desenvolvimento do primeiro protótipo da urna eletrônica. No ano seguinte, o equipamento foi utilizado pela primeira vez nas eleições municipais.
A adoção foi ampliada progressivamente até que, nas eleições de 2000, todo o eleitorado brasileiro passou a votar eletronicamente.
Ao longo desse período, diferentes modelos foram desenvolvidos. Para as eleições de 2026, serão utilizados equipamentos das gerações UE2013, UE2015, UE2020 e UE2022, sendo os modelos mais recentes responsáveis pela maior parte das urnas disponíveis.
Quem fabrica a urna?
Uma questão frequentemente levantada é quem produz fisicamente os equipamentos.
Ao longo de 30 anos, quatro empresas participaram da fabricação das urnas eletrônicas: Unisys Brasil, Procomp, Diebold/Diebold Procomp e Positivo Tecnologia.
Os modelos UE2020 e UE2022 foram fabricados pela Positivo Tecnologia, mas isso não significa que a empresa determine como funciona o sistema eleitoral.
O Tribunal Superior Eleitoral define as especificações técnicas e os requisitos que devem ser cumpridos na fabricação dos equipamentos.
O TSE explica que a urna eletrônica é um projeto da própria Justiça Eleitoral e que as empresas contratadas devem seguir as especificações estabelecidas pelo Tribunal.
O software passa por fiscalização
A segurança não está relacionada apenas ao equipamento físico.
Os sistemas eleitorais desenvolvidos pelo TSE passam por diferentes etapas de verificação. Uma delas é a abertura dos códigos-fonte para inspeção por entidades fiscalizadoras.
No ciclo eleitoral de 2026, instituições autorizadas puderam analisar os códigos dos sistemas eleitorais antes da conclusão do processo de desenvolvimento.
Essa etapa permite que especialistas e entidades fiscalizadoras tenham acesso aos programas que serão utilizados posteriormente nas eleições.
Depois das etapas de análise, os sistemas passam por procedimentos de compilação, assinatura digital e lacração.
A assinatura digital permite verificar a autenticidade dos programas. Já os códigos de resumo criptográfico, conhecidos como hashes, permitem identificar alterações nos arquivos.
Testar para encontrar possíveis vulnerabilidades
Outro mecanismo utilizado pela Justiça Eleitoral é o Teste Público de Segurança dos Sistemas Eleitorais.
A iniciativa permite que especialistas e investigadores externos tentem encontrar vulnerabilidades nos sistemas.
O objetivo não é simplesmente confirmar que tudo funciona, mas procurar possíveis problemas para que sejam corrigidos antes das eleições.
Em 2025, foram realizados testes sobre os sistemas que seriam utilizados nas eleições de 2026. Posteriormente, o TSE realizou uma nova etapa para verificar as correções aplicadas aos pontos identificados durante os testes.
Segundo o Tribunal, os testes realizados não comprometeram o sigilo do voto nem a integridade dos sistemas.
O secretário de Tecnologia da Informação do TSE, Júlio Valente, destacou a importância da participação externa no processo:
“Isso é extremamente benéfico, pois mostra que a sociedade colabora com a Justiça Eleitoral, por meio das investigadoras e dos investigadores que participam dos testes públicos, de forma a manter sempre seguro nosso sistema eleitoral.”
O que acontece antes da eleição?
A segurança continua depois da análise do código-fonte.
Em 4 de setembro de 2026, o TSE realizou a cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas eleitorais que serão utilizados nas eleições deste ano.
A partir dessa etapa, os sistemas oficiais passam a ter identificadores digitais que permitem verificar se os programas utilizados posteriormente correspondem às versões previamente analisadas.
Na véspera do primeiro turno, em 3 de outubro, o TSE também realizou uma nova verificação da integridade e autenticidade dos sistemas responsáveis pela transmissão, recepção e totalização dos resultados.
Segundo Júlio Valente:
“Esses testes asseguram que os sistemas que estão instalados no TSE são os sistemas que foram assinados digitalmente na Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas.”
E as urnas utilizadas pelos eleitores?
Antes de chegar aos locais de votação, as urnas passam por procedimentos de preparação e verificação.
São inseridos os dados necessários para cada seção eleitoral e realizados procedimentos de segurança antes do armazenamento e da distribuição dos equipamentos.
Também existem auditorias realizadas no próprio dia da eleição.
Entre elas está o Teste de Integridade, no qual uma urna selecionada recebe votos simulados durante todo o período de votação. Ao final, os votos registrados no procedimento são comparados com o resultado produzido pela própria urna.
A finalidade é verificar se aquilo que foi digitado corresponde ao resultado apresentado pelo equipamento.
O resultado pode ser conferido?
Outro elemento importante é o Boletim de Urna, documento emitido ao final da votação em cada seção eleitoral.
O boletim apresenta os resultados registrados naquela urna e pode ser utilizado para comparação com os dados posteriormente recebidos pelos sistemas de totalização.
Além disso, existem outros mecanismos de auditoria, como a verificação de assinaturas digitais, hashes, sistemas de totalização e o Registro Digital do Voto.
Dessa forma, a fiscalização não depende de um único procedimento.
A urna é conectada à internet?
Não.
A urna eletrônica utilizada pelo eleitor não permanece conectada à internet durante a votação.
Essa característica reduz a possibilidade de ataques remotos diretamente ao equipamento durante o processo de votação.
Entretanto, a segurança do sistema não depende exclusivamente da ausência de conexão com a internet. Ela envolve também criptografia, autenticação, assinatura digital, lacração, testes públicos e diferentes mecanismos de auditoria.
É possível falar em segurança absoluta?
Em qualquer sistema tecnológico, afirmar que existe risco zero seria uma afirmação difícil de sustentar.
O que pode ser analisado são os mecanismos existentes para prevenir, detectar e corrigir eventuais vulnerabilidades.
No caso brasileiro, a Justiça Eleitoral mantém procedimentos de fiscalização antes, durante e depois das eleições. Entidades fiscalizadoras podem participar de diferentes etapas e especialistas externos podem testar os sistemas em busca de vulnerabilidades.
A história da urna eletrônica brasileira também mostra uma evolução contínua.
Em 1996, o equipamento utilizava disquetes de 1,44 MB. Três décadas depois, o sistema eleitoral envolve equipamentos de diferentes gerações, software próprio, criptografia, assinatura digital, testes públicos, auditorias e procedimentos de verificação.
Mais do que uma máquina utilizada para registrar votos, a urna eletrônica faz parte de uma infraestrutura tecnológica que envolve diversas etapas de segurança e fiscalização.
A pergunta sobre sua segurança, portanto, não se resume apenas a saber se a máquina pode apresentar uma falha. Também é necessário observar quais mecanismos existem para identificar, impedir ou corrigir possíveis problemas.
Após 30 anos de evolução, é justamente essa combinação entre tecnologia, procedimentos de segurança e fiscalização que sustenta o funcionamento do sistema eletrônico de votação brasileiro.
