Page Nav

HIDE

Ultimas Noticias:

latest

Ouça

🔴 Rádio Estrelinha • ON AIR

⚽️A Copa do Mundo FIFA 2026 começou

Últimas notícias

View All

Cubanos em Roraima: o negócio dos coiotes por trás da nova rota migratória para o Brasil

  Por Libia López Operações policiais revelam crescimento do tráfico de migrantes na fronteira Norte, enquanto especialistas alertam para a ...

 


Por Libia López

Operações policiais revelam crescimento do tráfico de migrantes na fronteira Norte, enquanto especialistas alertam para a exploração de pessoas vulneráveis em busca de uma nova oportunidade de vida

Cubanos em Roraima: o negócio dos coiotes por trás da nova rota migratória para o Brasil

Nos últimos meses, uma sucessão de operações realizadas pela Polícia Federal (PF) e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Roraima chamou a atenção da opinião pública brasileira. Veículos interceptados, dezenas de migrantes resgatados e pessoas presas por promover a entrada irregular de estrangeiros passaram a ocupar espaço frequente nos noticiários.

Grande parte dos casos envolve cidadãos cubanos.

Mas enquanto as imagens das operações circulam rapidamente nas redes sociais, uma pergunta fundamental permanece sem resposta para boa parte da população:

O que está levando tantos cubanos a chegarem à fronteira Norte do Brasil?


A análise dos fatos mostra que o fenômeno é muito mais complexo do que aparenta. Não se trata apenas de imigração irregular ou de ações policiais. Trata-se de uma combinação de fatores econômicos, sociais e humanos que deram origem a uma lucrativa rede de tráfico de migrantes operando entre diferentes países da América Latina.

Uma nova dinâmica migratória

Durante anos, o debate migratório em Roraima esteve associado principalmente ao fluxo de venezuelanos que ingressavam no Brasil pela fronteira de Pacaraima.

Entretanto, nos últimos anos, autoridades migratórias passaram a observar um crescimento significativo da presença de cubanos utilizando rotas terrestres para alcançar território brasileiro.

Diferentemente do que muitos imaginam, esses migrantes raramente chegam diretamente ao Brasil.

A maioria percorre uma longa e complexa rota internacional que pode envolver diferentes países antes de alcançar a fronteira brasileira.

É nesse percurso que surgem os chamados "coiotes".

Quem são os coiotes?

No contexto migratório, o termo "coiote" é utilizado para designar indivíduos ou grupos que lucram facilitando a entrada irregular de pessoas em determinado país.

Em muitos casos, essas redes oferecem transporte, hospedagem temporária, documentação fraudulenta, orientação de rotas e atravessadores especializados em cruzar fronteiras.

Embora frequentemente sejam apresentados como simples facilitadores da viagem, especialistas em segurança internacional alertam que muitas dessas organizações operam como verdadeiras estruturas criminosas.

O lucro obtido pode alcançar milhares de dólares por migrante transportado.

Quanto maior o desespero da pessoa, maior tende a ser o valor cobrado.

O negócio da esperança

Ao analisar o perfil dos migrantes encontrados nas operações policiais, percebe-se um elemento comum.

A maioria não está fugindo da Justiça.

Não pertence a organizações criminosas.

Não representa ameaça à segurança nacional.

São pessoas que buscam oportunidades.

Homens e mulheres que acreditam que sua qualidade de vida poderá melhorar em outro país.

Essa realidade ajuda a compreender por que tantos indivíduos aceitam assumir riscos elevados.




Vender bens.

Contrair dívidas.

Depender financeiramente de familiares.

Viajar por milhares de quilômetros.

Entregar economias acumuladas durante anos a desconhecidos.

Sob a perspectiva da psicologia social, esse comportamento não é incomum.

O psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e autor de importantes estudos sobre comportamento humano em situações extremas, afirmava que as pessoas são capazes de suportar enormes dificuldades quando acreditam que existe uma possibilidade concreta de futuro.

É justamente essa esperança que alimenta as redes de tráfico de migrantes.

Os coiotes não criam o desejo de migrar.

Eles exploram esse desejo.

A atuação das autoridades brasileiras

As recentes operações conduzidas pela PF e pela PRF têm sido interpretadas por alguns setores como ações destinadas a impedir a entrada de cubanos no Brasil.

Essa interpretação, contudo, não corresponde à realidade jurídica dos casos investigados.


Veja reportagem


O foco das operações está concentrado nos responsáveis pelo transporte irregular de pessoas e não nos migrantes em si.

Na prática, grande parte dos estrangeiros encontrados nessas situações é considerada vítima de esquemas de exploração econômica.

Essa distinção é fundamental.

Combater o tráfico de migrantes não significa combater a migração.

Significa combater aqueles que lucram com a vulnerabilidade humana.

Por essa razão, as operações realizadas em Roraima merecem reconhecimento.

Ao desarticular redes clandestinas, as autoridades não estão apenas aplicando a lei.

Também estão reduzindo riscos de abuso, extorsão, abandono em áreas isoladas e outras formas de exploração frequentemente associadas ao tráfico de migrantes.

Brasil: uma alternativa legal para migrantes

Outro aspecto frequentemente ignorado no debate público é que o Brasil possui uma das legislações migratórias mais modernas da América Latina.

A Lei de Migração brasileira estabelece mecanismos de regularização, acesso a direitos básicos e proteção jurídica para estrangeiros em situação de vulnerabilidade.

Diferentemente do discurso promovido por traficantes de pessoas, a regularização documental não exige o pagamento de milhares de dólares a intermediários clandestinos.

Existem procedimentos oficiais, fiscalização estatal e garantias legais.


Isso torna ainda mais preocupante a atuação dos coiotes.

Muitos migrantes pagam valores elevados por serviços que, em diversas situações, poderiam ser substituídos por processos regulares previstos na legislação brasileira.

O risco da criminalização dos migrantes

A divulgação constante de operações policiais envolvendo cubanos também apresenta outro desafio.

O risco da generalização.

Historicamente, sociedades receptoras de migrantes tendem a associar problemas de segurança a determinados grupos estrangeiros quando a cobertura midiática se concentra apenas em ocorrências policiais.

Especialistas em psicologia social alertam que esse fenômeno pode favorecer preconceitos e estigmatizações.

O psicólogo Gordon Allport, referência mundial nos estudos sobre preconceito, demonstrou que indivíduos frequentemente extrapolam comportamentos isolados para grupos inteiros quando possuem informações limitadas sobre determinada comunidade.

Em outras palavras, a presença de cubanos em operações policiais não significa que a comunidade cubana esteja associada ao crime.

Na maioria dos casos investigados, os próprios migrantes figuram como as principais vítimas das organizações que os transportam.

Uma questão regional

O crescimento das rotas utilizadas por migrantes cubanos revela um desafio que vai além das fronteiras brasileiras.

O fenômeno envolve fatores econômicos, sociais e políticos que atravessam diferentes países da América Latina.

Enquanto persistirem situações de vulnerabilidade e ausência de oportunidades, continuará existindo demanda por migração.

E enquanto existir demanda, organizações criminosas continuarão tentando transformar a esperança humana em negócio.

Te convidamos assistir esse video em espanhol, no canal BANDERA ROJA


Reflexão necessária

As imagens das operações em Roraima mostram apenas a parte visível de um problema muito maior.

Por trás de cada resgate existe uma história de dificuldades, expectativas e decisões difíceis.

Por trás de cada prisão existe uma rede que encontrou na necessidade humana uma fonte de lucro.

A verdadeira discussão talvez não seja quantos cubanos estão chegando ao Brasil.

A pergunta mais importante é outra:

Por que tantas pessoas acreditam que precisam arriscar tudo para encontrar um futuro melhor?

E, sobretudo:

Como impedir que organizações criminosas continuem transformando sonhos, esperança e vulnerabilidade em um negócio milionário?






D

DESTAQUES