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O silêncio do centro: por que milhões de brasileiros defendem programas sociais, mas não se consideram nem lulistas nem bolsonaristas?

  Quando se fala em eleições presidenciais no Brasil, a atenção costuma se concentrar nos candidatos, nos partidos e nas pesquisas eleitorai...

 



Quando se fala em eleições presidenciais no Brasil, a atenção costuma se concentrar nos candidatos, nos partidos e nas pesquisas eleitorais. Mas existe uma força silenciosa que pode ter um peso decisivo em 2026: os milhões de brasileiros que dependem, direta ou indiretamente, dos programas de proteção social do Estado.

Mais do que uma discussão ideológica, trata-se de uma realidade presente em praticamente todos os municípios do país.

O Bolsa Família encerrou 2025 atendendo cerca de 19,8 milhões de famílias, com benefício médio de aproximadamente R$ 680 por mês. Ao mesmo tempo, cerca de 2 milhões de famílias deixaram o programa após aumento de renda, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

Mas o Bolsa Família é apenas uma parte da rede de proteção social brasileira.

Outro programa fundamental é o Benefício de Prestação Continuada (BPC), destinado a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade. Somados, Bolsa Família, BPC e outros benefícios assistenciais alcançam dezenas de milhões de brasileiros.

Em muitas cidades pequenas e médias, esses recursos movimentam a economia local, sustentam o comércio e garantem a sobrevivência de famílias inteiras.

A mudança que poucos perceberam

Durante muitos anos, programas sociais foram tratados como uma disputa ideológica entre esquerda e direita.

Mas algo parece estar mudando.

Nos últimos meses, até mesmo lideranças tradicionalmente associadas ao campo conservador passaram a defender a manutenção desses programas.

O senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, afirmou recentemente que o Bolsa Família se tornou um "direito adquirido do povo brasileiro" e que ninguém teria o direito de acabar com o programa. Também declarou que é um erro afirmar que os beneficiários não querem trabalhar.

A declaração chama atenção porque revela uma mudança importante no debate político nacional.

A discussão já não gira em torno da existência ou não dos programas sociais.

A disputa passou a ser sobre quem consegue administrá-los melhor e de forma mais eficiente.

O desafio da credibilidade

Ao mesmo tempo em que os programas sociais ampliaram sua importância, aumentou também a pressão por fiscalização e transparência.

Nos últimos anos, operações da Polícia Federal revelaram esquemas de fraude envolvendo benefícios assistenciais.

Em Roraima, a Operação Cessatio investigou grupos suspeitos de obter ilegalmente benefícios do BPC destinados a idosos venezuelanos. Segundo a Polícia Federal, o esquema envolvia agenciadores, falsificação documental e escritórios de advocacia que atuavam na obtenção irregular dos benefícios. O prejuízo investigado ultrapassaria R$ 16 milhões.

Mais recentemente, uma nova fase da Operação Ataktos teve como alvo investigados, incluindo servidores públicos e um médico, suspeitos de participação em fraudes relacionadas ao BPC em Roraima.

Esses casos trazem um ponto importante para o debate público.

Grande parte das discussões nas redes sociais acabou direcionando críticas generalizadas aos migrantes venezuelanos. Entretanto, as investigações da Polícia Federal apontam a atuação de organizações criminosas, intermediários, agenciadores e profissionais que teriam se beneficiado financeiramente dos esquemas.

Ou seja, o foco das investigações não está apenas nos beneficiários irregulares, mas principalmente nas estruturas organizadas que teriam lucrado com fraudes ao sistema.

A distinção é importante para evitar generalizações que alimentem discursos xenofóbicos e prejudiquem milhares de pessoas que utilizam os programas dentro da legalidade.

O caso INSS e a crise de confiança

As recentes investigações envolvendo descontos irregulares em benefícios do INSS também ampliaram a preocupação da população com a segurança dos recursos públicos.

Embora se trate de situações distintas, os episódios reforçaram uma percepção crescente entre os brasileiros: proteger os programas sociais é importante, mas garantir fiscalização eficiente tornou-se igualmente fundamental.

A sociedade parece exigir duas coisas ao mesmo tempo.

Mais proteção social para quem realmente precisa.

E mais rigor contra quem tenta transformar políticas públicas em fonte de lucro ilícito.

O poder político dos programas sociais

É impossível ignorar o peso eleitoral desse universo.

Quando quase 20 milhões de famílias recebem Bolsa Família e milhões de outras pessoas dependem do BPC ou de benefícios assistenciais, forma-se uma parcela significativa do eleitorado nacional.

Mas reduzir esse grupo a uma simples "base eleitoral" seria um erro.

Entre os beneficiários existem trabalhadores informais, idosos, mães solo, pessoas com deficiência, desempregados temporários e famílias que vivem em regiões onde as oportunidades econômicas continuam limitadas.

Muitos não se identificam integralmente com nenhum partido político.

Eles avaliam o impacto concreto das políticas públicas em suas vidas.

É justamente por isso que os programas sociais deixaram de ser uma pauta exclusiva de um campo ideológico.

Hoje, praticamente nenhum candidato competitivo à Presidência propõe sua extinção.

O que esperar para 2026?

As pesquisas recentes indicam que beneficiários de programas sociais continuam representando um segmento importante para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas o cenário futuro pode ser mais complexo.

A tendência observada nos últimos anos sugere que a disputa eleitoral não será sobre manter ou acabar com os programas.

A verdadeira disputa poderá ocorrer em torno de três perguntas:

Quem consegue garantir a continuidade dos benefícios?

Quem apresenta maior capacidade de combater fraudes?

Quem consegue transformar assistência social em oportunidades permanentes de geração de renda?

Essas respostas podem influenciar milhões de eleitores.

E talvez expliquem por que, mesmo em meio à polarização política, programas sociais continuam ocupando um espaço central no debate nacional.

No final, a pergunta que pode definir a eleição não é apenas quem recebe um benefício.

Mas quem consegue convencer os brasileiros de que sabe proteger, fiscalizar e ampliar oportunidades para quem mais precisa.



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